Cover Guitarra - Nº. 148 - Abril 2007
1) Você acaba de lançar dois trabalhos: o CD “Regra de Três” e o CD do grupo MC4+ intitulado “Colagens”. Qual o principal e grande diferencial entre os dois trabalhos?

O Regra de Três é um trio com composições de todos componentes: Bob Wyatt, Marcos Paiva e eu, com a instrumentação guitarra, baixo e bateria, já O MC4+ é um quinteto do saxofonista Marcelo Coelho com composições e conceito que ele pesquisou, com instrumentação: sax, trombone (Paulo Malheiros), guitarrra, baixo e bateria.
Tenho bastante identificação com as composições do MC4+, elas exigem tanto dos músicos que acabam tendo a cara do grupo e não só do autor. Além do que, a “cozinha” é do Sinequanon, que adoro tocar: Guto Brambilla (Baixo) e Carlos Ezequiel (bateria)

2)Fale um pouco sobre a concepção do “Regra de Três” e como surgiu a idéia de gravar o CD?

Eu tocava com Bob em diferentes ocasiões por anos, e sempre gostei muito, até que no ano passado decidimos montar um trio para explorar conceitos que partilhávamos e tocar frequentemente, já que temos um gosto musical muito parecido.
Marcos Paiva (Baixo) foi uma escolha natural de ambos, adorávamos tocar com ele, e sabíamos que ele conseguiria colocar a mesma energia, e, ao mesmo tempo, contribuir com as liberdades que o trio busca nas músicas.
Foi muito rápido, em dois meses tínhamos repertório para um cd, foi só tocar algumas vezes ao vivo ensaiar e gravar. As composições vieram naturalmente e foram feitas para este trio, esta formação, estas pessoas.

3) Qual a grande diferença e o que é mais importante quando se grava em uma formação de trio?

Técnicamente é mais fácil, pois são apenas 3 sons para lidar no estúdio, ajuda tanto na gravação quanto na mixagem.
Musicalmente, é uma formação que gosto muito, existe espaço para criar e mais caminhos a seguir.
Para o guitarrista é muito bom, sobra trabalho: melodia, acompanhamento, solos, tudo ao mesmo tempo, é um parque de diversões, mas deve-se ouvir com o dobro de atenção para contribuir mantendo a idéia musical proposta no momento. Por haver espaço demais as vezes tocamos em excesso e deixamos o caminho confuso.

4) Como foram arranjadas as linhas de guitarras no CD “Regra de Três” e no CD “Colagens”?

O cd Colagens é bastante arranjado, com linhas melódicas compostas pelo Marcelo Coelho e outras que criei como acompanhamento em contraponto da melodia, e embora o cd tenha uma arranjo denso, para quinteto, há muito espaço para os improvisos.
No Regra de Três seguimos as composições também, mas tomamos muito mais liberdade para expandir a forma, tempo, métrica e a harmonia.
A execução muda muito de um show para o outro, sempre levamos para um “lugar” novo. O conceito dos dois grupos, a proposta e a instrumentação são completamente diferentes, proporcionando panoramas distintos.  

5) Na música Mr. Leel você utilizou um timbre diferente na guitarra. Fale um pouco sobre essa música (variações rítmicas, etc.) e sobre o efeito utilizado.

A música Mr.Leel foi composta para o saxofonista Jaleel Shaw que gravou meu primeiro cd, Images, e hoje toca com Dave Holland, Roy Haynes entre outros. Inspirei-me muito nele pela dedicação e sonoridade que ele alcança.
È uma música onde se ouve um 5/4 e um ¾, o acento da melodia desloca o ouvinte da métrica. Procurei também trabalhar com tríades aumentadas em diferentes combinações na melodia e harmonia.

Quanto a efeitos, utilizei apenas um pedal Chorus com o efeito exagerado para gerar aquele som “instável”.

6)
Como foram gravadas as guitarras nos dois CDs? Houve alguma diferença de um trabalho para outro?

Com exceção do efeito do Chorus, as guitarras foram gravadas da mesma forma, ambos cd´s foram gravados no mesmo mês, no final do ano passado.
Usei um amplificador Polytone Brute originalmente para Contra Baixo, guitarra 175 Gibson, cordas 012. Gravamos ao vivo no estúdio, ou seja todos juntos como um show, tocamos em média 2 vezes cada música e escolhemos a melhor versão.

Fizemos no mesmo estúdio Mini Max, onde gravo o Sinequanon também, com o técnico/produtor Alberto Ranellucci, que conhece bem este tipo de som. É o mais importante, pois deixa o mais natural possível sem interferências nem mágicas de softwares.

7)Quando foi que você começou a se interessar pelo “free jazz” e quais as principais características dessa vertente do jazz?

Considero tanto o Regra de Três quanto MC4+ cd´s de Jazz Moderno e não Free Jazz exatamente, embora existam algumas características comuns.
Eu ouço todos estilos de Jazz a uns 8 anos, mas tenho preferência pelo Hard Bop (Wayne Shorter, Joe Henderson, Coltrane), Free (Ornette Coleman e Paul Bley) e Moderno (Dave Douglas, Scott Colley e Jerry Bergonzi).
No Regra de Três as músicas acontecem em volta da melodia, construímos solos, groove e harmonia, procurando variações a cada execução. Tentando absorver o máximo daquela melodia específica, e isso pode influenciar na métrica, tempo, harmonia, enfim, tudo. Mas sempre tocando juntos. É uma música mais livre, mas que exige muita atenção e cuidado para preencher o espaço, sem ocupar o do outro.
O Free Jazz tem várias vertentes, alguns grupos têm composições estruturadas, com forma e melodia, mas sem harmonia pré concebida, o improviso dirige tudo, é o caso dos quartetos do Ornette Coleman. Outros artistas improvisavam a estrutura toda (forma, melodia, harmonia) e construíam verdadeiras obras de arte muitas vezes sem pulso, caso de John Coltrane, Cecyl Taylor e Sam Rivers. Vale a pena conhecer este universo
.

8) E o mercado para a música instrumental no Brasil como está?

A cada ano vejo mais pessoas interessadas, querendo estudar este assunto. Mas o mercado pode melhorar muito, nos EUA/Europa os shows são cheios e o consumo de cd´s é grande, e não é diferença de cultura, nem de dinheiro, pois aqui tem até mais shows gratuitos do que em outros países. A diferença é que os músicos vão aos shows e compram cd´s. Grande parte do que se aprende é assistindo e ouvindo, não fique em casa aumentando a estante virtual de downloads de livros e cd´s.
Este tipo de música acontece ao vivo, e não há youtube que substitua esta energia. Eu sigo em frente, lanço mais cd´s e procuro tocar toda semana, assisto e compro novidades, sempre aprendo algo novo. Para se tornar um grande músico você precisa vivenciar esta arte diariamente !!!

Lupa Santiago
Por Gustavo Martins