Cover Guitarra - Nº. 148 - Abril 2007
1) Em seu mais recente trabalho com o quarteto Sinequanon, Telescópio, me pareceu que sua maneira de tocar foi calcada em conceitos de improvisação, muito mais do que em seus trabalhos anteriores. Em caso afirmativo, isso surgiu por uma questão estético/musical inserida dentro da sonoridade característica do quarteto ou por conta de uma manifestação espontânea perante o material composto?

Tocamos juntos a muito tempo e nos conhecemos musicalmente melhor um ao outro, isso leva a improvisação muito mais longe. Mesmo as composições, nos “impomos” desafios maiores a cada cd. Ouvimos e estudamos bastante os mesmos estilos, isso dá uma direção natural para o trabalho.

2) Há algo de ‘cinematográfico’ em composições como “Abril” e “Dinastia Mingus”. Estímulos visuais foram importantes fontes de inspiração para o disco?

Estímulos visuais são uma constante na “palheta de composição”.
Diante de tantas novidades e complexidades técnicas, de forma, conceitos, estrutura na improvisação e na composição da música moderna em geral, a relação visual ajuda a soar natural, menos acadêmico.
Dinastia Mingus e escrevi em homenagem a um dos grande compositores do século passado, Charles Mingus, e um de seus melhores grupos que leva o nome da música. Muitas das características de suas composições têm me influenciado na hora de escrever. Neste cd fiz mais uma homenagem, Ornettology, para Ornette Coleman, outro ícone que tenho estudado bastante. A melodia é a transcrição de um solo dele na música “Uma Mais Bonita”.
Precisamos estudar a tradição do estilo que buscamos, e para o Jazz Moderno, estes nomes são condição sine qua non

3) O disco foi gravado ao vivo no estúdio? Fiquei com esta impressão depois de ouvir faixas como “Caminho Suave” e “Pour House”?

Sempre gravo ao vivo, ao mesmo tempo, na mesma sala, nunca separamos instrumentos, nada de overdubbs. Para este estilo de música é importante respirar e responder musicalmente na hora, se gravássemos separado acabaria com a espontaneidade do improviso. A qualidade artística do tipo de música que fazemos está no momento, no “tocar junto”, não repetindo , mas completando, tanto na improvisação quanto na interpretação da composição. Se tivéssemos gravado prejudicaríamos a dinâmica, o acompanhamento, energia, articulação, tudo.
Por isso, procuramos estúdios com salas grandes e apropriadas, microfones bons e um bom engenheiro de som, assim usamos o mínimo possível de ferramentas tecnológicas, softwares e etc...sendo mais fiel ao que tocamos naquele dia, sem cortes ou efeitos.

4) Quais foram os equipamentos que você utilizou nas gravações (guitarras, amplis, cordas, efeitos, microfones)

Usei minha Guitarra 175 Gibson 1979, ampli polytone mini brut (p/ contrabaixo), cordas 012 d´addario, não usei efeitos.
Usei 2 vias, um microfone no amplificador e uma via em linha que passou em um pedal da Sansamp chamado Acoustic DI para equalização. Palheta JD 208 (Dunlop)

5) O fato de seu trabalho ser constantemente elogiado pela crítica e pelo público é um perigo para um músico inquieto como você? Existe o ‘vírus da comodidade’?

Este vírus existe sim, mas consigo mantê-lo bem longe de mim. Ainda estou muito longe do que procuro como músico, os meus favoritos estão em um nível muito alto e isso é um espelho muito bom, mantém a direção.
Os melhores músicos que conheço de perto e admiro são humildes, focados e dedicadíssimos, muitos foram chamados de gênios, mas acho q a genialidade é o simples resultados da combinação destes três ítens.
Procuro estar sempre “mergulhado” na música, o mais atualizado possível, ouvindo e estudando a fundo as novidades. Artistas atuais como: Dave Douglas, Adam Rogers, Kurt Rosenwinkel, Nenê, Alberto Luccas, Edu Ribeiro (batera), Ben Monder, Scott Colley, Ben Allison, Jerry Bergonzi, Edward Simon, trazem inovações quase que mensais no campo da improvisação e da composição. Além dos mais antigos, fonte inesgotável de novidades: Don Cherry, Pixinguinha, Paul Bley, Monk, Eric Dolphy, John Coltrane, Paul Motian, Moacir Santos.

6) Quais seus novos trabalhos?

Além dos shows do Sinequanon, estou lançando em Abril um cd em trio com Bob Wyatt e Marcos Paiva, chamado Regra de Três, com composições originais minhas e destes dois músicos “gigantes”.
Estou tocando também com o grupo MC4+, do saxofonista Marcelo Coelho, gravamos um cd que deve sair em Maio, vale a pena conferir. Também faço parte do sexteto de Sizão Machado, um trabalho sensacional de música brasileira moderna.


7) Principalmente hoje, quando o ritmo de informações se tornou muito veloz, você acha importante, como educador, ensinar menos o que se ‘deve tocar’ e mais o que ‘não se deve’?

O ritmo de informações é maior, mas a capacidade de assimilação é a mesma, ou até menor pelo stress da velocidade cotidiana. Música ainda é a mesma em seus fundamentos, e é melhor você se dedicar a qualidade do que aprende, estudar profundamente cada novidade, do que preocupar-se com a quantidade.
Muita gente que sabia muito pouco fez música de excelente qualidade, pois dominava aquele pouco. Lógico, é importante que sempre busque progredir, aprender e ouvir o novo, mas assimile cada coisa ao seu tempo.
Se a dez anos atrás você precisava de 30horas de estudo para estudar certo tópico e realmente aprendê-lo, hoje você continua precisando das mesmas 30horas, mesmo que você tenha acesso a mais informações, mais livros, downloads, não interessa, o seu tempo com seu instrumento continua indispensável e insubstituível.
E ainda com o agravante da ansiedade que este ritmo de informações gera, acabando com a concentração.

8) A distribuição ainda é o “calcanhar de Aquiles” para quem grava discos de modo independente ou a Internet é a solução para tal dificuldade?

Eu já tive cd´s com algumas distribuidoras, a melhor até agora é a atual, Tratore. A internet não supre a distribuidora, mas também concordo que a distribuição é um parte do “calcanhar de Aquiles”.
Não adianta apenas colocar o cd na prateleira. Os nossos cd´s são distribuídos em megastores e lojas especializadas, que de fato, é onde está o nosso público. Ninguém iria comprar um cd do Sinequanon numa loja de pagode.
Acho que a música me geral precisa acessar mais gente, no Brasil continuamos reféns da programação ingênua das rádios e acomodação do ouvinte. Acho que as pessoas saem pouco de casa para assistir shows, ficam em casa no computador.
Nós somos o mercado, se você quer saber quantas pessoas vão ao seu show, conte quantos shows você foi na última semana. Se você quer saber quantos cd´s sua banda vai vender, veja quantos cd´s comprou no último mês.
Conheço muita gente que não compra cd´s nem vai aos shows, mas adoram comprar vídeo aulas e workshops. A contribuição destes itens é inegável, mas nada substitui você assistir música ao vivo.
Mas eu não gosto de reclamar, sou otimista e acho que tudo está andando para frente, precisamos tocar mais, estudar mais ouvir mais, procurar menos erros nos outros, e melhorar o que estamos fazendo.

9) As grandes gravadoras estão morrendo. Isso é um bom negócio para o músico?

Não tenho certeza que seja um bom negócio, era melhor ter havido uma melhora de mentalidade e visão das gravadoras do que a extinção delas. Não acredito que a internet suprirá 100%.
Além disso, o músico terá de ser empresário, produtor, distribuidor, divulgador, enfim, cada vez acumulará mais funções. E a dedicará menos atenção para a música, um grande erro.
O produto disco/cd, é muito interessante, talvez mais para frente pensem em algo melhor. Mas cada vez mais vejo pessoas baixando “milhões” de músicas da net sem nem ouví-las, é o consumo rápido, o ter no lugar do ser. Tem muita coisa errada neste pensamento que vem sendo disseminado. Acho a internet uma ferramenta sensacional, mas não podemos virar dependentes. Como estudo, é melhor ter um cd do seu artista favorito e conhecê-lo bem , tocá-lo por inteiro e dissecá-lo, do que ter 10 GB (giga) de música sem nem ter ouvido uma vez por inteiro.


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